Salvador — Na última terça-feira, a roda no Terreiro de Jesus começou às 18h e às 19h30 já não havia espaço para quem chegava. Berimbau, atabaque, palmas e ginga preencheram a praça enquanto turistas paravam para filmar e moradores locais entravam no jogo. Cena comum antes de 2020, rara durante a pandemia e, hoje, cada vez mais frequente em bairros que não estão no roteiro do Pelourinho.
A capoeira em Salvador nunca sumiu de verdade — mas ficou menor, mais fragmentada, mais caseira. Grupos se reuniam em quintais, salas de aula fechadas ou transmissões ao vivo com qualidade duvidosa. O que mudou depois que as restrições afrouxaram foi a escala: rodas abertas voltaram com público jovem que, em muitos casos, descobriu a arte durante o isolamento por vídeos no YouTube e no Instagram.
O que a pandemia tirou — e o que devolveu
Mestre Raimundo, 58 anos, fundador de um grupo em Lobato, lembra que perdeu quase metade dos alunos entre 2020 e 2021. "Muitos foram trabalhar, outros se mudaram, alguns simplesmente não voltaram." O que ele não esperava foi o perfil de quem apareceu em 2023: jovens de 16 a 22 anos, maioria mulheres, muitos sem vínculo familiar com a capoeira.
"Eles chegam querendo movimento, querendo comunidade", diz Raimundo. "A capoeira oferece os dois." Segundo levantamento informal feito por cinco academias ouvidas pelo Ginga, o número de iniciantes abaixo de 25 anos cresceu entre 30% e 45% em relação ao período pré-pandemia.
Na região do Pelourinho, o turismo retomado ajudou a encher as rodas turísticas — mas mestres de grupos independentes dizem que o crescimento real está na periferia. Em Plataforma, Cajazeiras e Pirajá, novas rodas semanais surgiram patrocinadas por associações de bairro e, em alguns casos, por verba de emenda parlamentar voltada à cultura afro-brasileira.
Capoeira como herança, não como espetáculo
Para Júlia Andrade, 21, estudante de pedagogia que começou a jogar em 2022, a capoeira foi "o lugar onde eu parei de me sentir deslocada na universidade". Filha de migrantes do interior da Bahia, ela cresceu ouvindo sobre a arte, mas nunca tinha entrado numa roda. "Achava que era coisa de homem forte. Até ver meninas da minha idade no Instagram treinando e postando."
Essa narrativa — capoeira como espaço de pertencimento para jovens negros e negras — aparece em quase todas as entrevistas que fizemos. Diferente do funk ou do TikTok, a arte carrega peso simbólico de resistência. Mestres mais velhos veem com cautela a popularização rápida: "Não adianta lotar a roda se ninguém aprende história", alerta Mestra Cida, referência na capoeira angola em Salvador.
A roda não é palco de influencer. É conversa com ancestralidade — e isso exige tempo, não só post bonito.
Cida cobra que novos alunos aprendam música, ladainha e contexto histórico, não só acrobacia para vídeo. Grupos que conciliam presença digital com formação tradicional parecem ter mais retenção de alunos jovens.
Financiamento e espaço: os problemas que ficaram
A volta das rodas não resolveu problemas estruturais. Terreiros alugados ficaram mais caros após a inflação de 2022-2024. Equipamento — berimbau, atabaque, corda — subiu de preço. Muitos mestres continuam ensinando de graça ou por mensalidades simbólicas que não cobrem aluguel.
Em audiência pública na Câmara Municipal de Salvador em maio, representantes de grupos de capoeira pediram inclusão da arte em editais de cultura periférica com critérios que não privilegiem apenas grupos já institucionalizados. "Quem está na rua também precisa de microfone e piso", disse um dos presentes.
A Secretaria de Cultura do estado respondeu que um edital específico para capoeira e manifestações afro deve sair no segundo semestre, mas mestres ouvidos pelo Ginga tratam a promessa com ceticismo — já ouviram versões parecidas antes.
O que vem pela frente
No próximo mês, Salvador recebe o Encontro de Capoeira da Bahia, com rodas em pelo menos oito bairros. Organizadores esperam público recorde. Para os jovens que voltaram ao berimbau depois da pandemia, o evento é chance de jogar fora do círculo do Pelourinho — e, quem sabe, encontrar mestre ou mestra que mude a trajetória.
O Ginga acompanhará o encontro e publicará relatos de rodas abertas ao público. Se você treina capoeira em Salvador e quer compartilhar sua história, escreva para [email protected].